Economia

Vencida a prova da qualidade dos vinhos açorianos, falta dimensão para visibilidade no mercado

  • 9 de Outubro de 2009
  • 196 Visualizações, Última Leitura a 26 Setembro 2017 às 00:19
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A produção vinícola açoriana declarada ultrapassa os 1,5 milhões de litros por ano, mas o volume de vinho certificado anualmente nas ilhas não tem ido além 300 mil litros, penalizando a sua visibilidade no mercado.

Dados fornecidos à Agência Lusa pela Comissão Vitivinícola Regional (CVRA) indicam, porém, que a produção de vinhos certificados assiste a um crescimento continuado nas ilhas, sobretudo a partir de 2004, quando foi criada a categoria de Vinho Regional Açores.

Antecedido de uma fase experimental de castas que se prolongou por vários anos, o processo de certificação dos vinhos açorianos que abriu caminho ao sucesso de marcas como o Terras de Lava, Lagido, Pedras Brancas, Frei Gigante e Verdelho dos Biscoitos, começou em meados da década de 90, com a criação simultânea de zonas demarcadas no Pico, Graciosa e Terceira e da CVRA.

Paulo Machado, técnico da Comissão Vitivinícola Regional, está convencido de que esse processo foi determinante para a gradual substituição, a que se tem vindo a assistir, de vinhedos de uvas de "cheiro" (produtores directos) - introduzidas no arquipélago devido a uma praga de atacou especialmente as castas de verdelho.

Fatal para a fama e qualidade do vinho açoriano, que nos seus tempos de glória chegou a ser servido na corte russa e no Vaticano, a praga determinou o alastramento a quase todas as ilhas do predomínio do "vinho de cheiro", ainda hoje simbolicamente servido nas principais festas populares da Região, em louvor do Divino Espírito Santo.

Pico, cujos currais de vinha levaram à sua classificação pela Unesco como Património Mundial da Humanidade, foi a ilha que mais cedo abraçou o processo de reconversão, acompanhada pela Terceira e Graciosa.

Paulo Machado e Ernesto Ferreira, presidente da Adega Cooperativa Vitivinícola do Pico (ACVP), entendem que esta ilha, quer pelo seu património quer pelas condições especiais que oferece, pode continuar a alavancar a produção vinícola açoriana, garantindo-lhe mais qualidade e quantidade.

A circunstância da classificação recente do Pico como Património Mundial pode mesmo servir de justificação para a criação de legislação específica destinada a estimular a transferência da passe para novos vitivinicultores de vinhedos que não são explorados nem dados de arrendamento pelos respectivos proprietários, considerou Ernesto Ferreira.

Implicado desde a década de 80 no processo de reconversão das vinhas do Pico, o presidente da ACVP está convencido de que um diploma com esse objectivo permitiria à produção regional de vinhos dar o salto que falta para ganhar visibilidade no mercado exterior, combinando qualidade com quantidade.

Apesar da ausência desse estímulo, Ernesto Ferreira reconhece que é irreversível a reconversão dos vinhedos nos Açores, adiantando, a título de exemplo, que na colheita desta ano (bom para a produção de uvas), a sua adega deverá produzir cerca de 300 mil litros de vinho certificado, num volume global de 550 mil.

Este ano verificou-se, de novo, um recuo na produção de "vinho de cheiro", acrescentou, garantindo que os vinhos dos Açores já oferecem qualidade e preços competitivos.

Uma opinião partilhada por Paulo Machado, defensor da ideia de uma íntima ligação do vinho açoriano ao turismo, e pelo presidente da Adega Cooperativa da Graciosa, João Pincanço, que não acredita que a produção vinícola da "Ilha Branca" regresse a volumes na casa dos 600 mil litros registados na década de setenta.

Produzimos anualmente entre oito a 10 mil litros e este ano deveremos atingir os 12 mil, referiu o dirigente da produtora do Pedras Brancas.

Nos anos mais recentes a produção vitivinícola açoriana tem registado uma outra inovação: o surgimento de produtores independentes, sobretudo na ilha de S. Miguel, que a colocam no mercado marcas de especial qualidade.

Barrocas do Mar, uma dessas marcas, foi considerado o melhor vinho branco regional dos Açores, sendo produzido de forma artesanal numa pequena vinha em São Miguel, por um antigo comandante de aviões.

"Isto é quase um passatempo", afirmou Hermano Ferreira, ex-comandante da transportadora aérea açoriana SATA, em declarações à Agência Lusa, admitindo nunca ter pensado em vir a produzir um vinho premiado.

No primeiro concurso realizado pela Comissão Vitivinícola Regional dos Açores para vinhos certificados, o vinho da colheita de 2008 do comandante Hermano Ferreira venceu a Medalha de Ouro, tendo sido pontuado pelo júri com 92 pontos em 100.

O vinho premiado é cultivado num terreno com cerca de 1.500 metros quadrados, na Ribeira das Tainhas, na costa sul de São Miguel, onde estão plantadas 460 vides das castas Fernão Pires e Verdelho.

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