Economia

Açores: laboratório do MIT para projecto energético

  • 9 de Fevereiro de 2009
  • 182 Visualizações, Última Leitura a 17 Agosto 2017 às 17:33
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Criar um sistema energético que, através de redes eléctricas inteligentes, aproveite ao máximo as fontes de energia renovável e evite perdas de energia na rede é o objectivo do projecto-bandeira do MIT Portugal que pretende dar a duas ilhas dos Açores um elevado grau de autonomia energética.

Maximizar o volume de energias renováveis utilizado na produção de energia eléctrica, criar uma rede eléctrica inteligente onde o consumidor é também gestor da procura e da oferta de energia e expandir o uso dos transportes eléctricos, são as três frentes de trabalho do projecto “Green Islands” do Programa MIT Portugal para alcançar em 2018 o objectivo principal: dar a pelo menos duas ilhas dos Açores, São Miguel e Flores, um elevado grau de autonomia energética.

Quarenta investigadores de cinco universidades portuguesas e dez investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) estão associados ao projecto que escolheu os Açores para laboratório real da experiência-piloto. O MIT Portugal pretende demonstrar como a utilização integrada de soluções tecnológicas inovadoras no domínio energético podem resultar numa transformação económica e ambiental sustentável.

Dez anos foi o prazo definido para fazer a transformação, mas como explica Paulo Ferrão, director nacional do Programa, “já em 2013, gostaria de trazer aos Açores pessoas do mundo inteiro para verem sistemas-piloto a trabalhar a diferentes níveis”. O grande objectivo é criar um sistema energético que, através de redes inteligentes, aproveite ao máximo as energias renováveis e evite perdas de energia na rede.

Na prática, pretende-se que, no prazo de três anos, exista na Região um conjunto de edifícios com microgeradores que produzam energia e aqueçam os interiores (utilizando pequenas turbinas eólicas, painéis fotovoltaicos e biomassas), mas que possuam também capacidade para comprar e vender energia à rede eléctrica, e que incorporem tecnologias de informação com capacidade para desligar e ligar equipamentos em função da procura.

Cada consumidor passará a ser ao mesmo tempo produtor de parte da energia que necessita, podendo vender o excesso à rede pública, e ajustar os consumos de electricidade em determinadas situações, explica João Lopes, coordenador do INESC Porto, uma das universidades parceiras do projecto.

Por outro lado, o projecto tem em vista também a expansão do aproveitamento das energias renováveis nas ilhas, através de mais parques eólicos, centrais geotérmicas e centrais de aproveitamento de biomassas (produzidas a partir de árvores ou de resíduos sólidos urbanos e estrumes), de modo a que, em 2018, 75 por cento da electricidade usada na Região tenha origem renovável.

A introdução de veículos eléctricos, ligados à rede de forma inteligente, é a terceira frente de trabalho do projecto “Green Islands”. Segundo João Lopes, os veículos eléctricos vão consumir electricidade em horas de menor consumo e evitar desse modo o consumo de combustível fóssil (com um volume de emissões poluentes indesejável), mas ao mesmo tempo, terão capacidade para armazenar energia e disponibilizar parte dessa energia à rede eléctrica em períodos de maior consumo.

Como explica o investigador do INESC Porto - Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto, o projecto vai intervir do lado da oferta, com a maximização do volume de energias renováveis, e intervir do lado da procura, dando aos consumidores a capacidade de participar na gestão do sistema eléctrico, tornando-a mais eficiente.

Criação de cenários

Neste momento, o projecto está na fase de desenvolvimento de cenários, adianta Paulo Ferrão. Mas, ainda este ano, serão tomadas decisões sobre os investimentos a fazer, nomeadamente ao nível dos parques eólicos, das centrais geotérmicas, aquisição de veículos eléctricos (para a frota do Governo Regional, por exemplo, ou para a rede de transportes públicos), e sobre a localização da rede eléctrica inteligente e as casas-tipo, revela o director nacional do Programa do MIT em Portugal. Sabe-se para já que São Miguel e Flores são as ilhas escolhidas para a experiência-piloto, tendo em conta o aproveitamento dos recursos endógenos - “São Miguel por ser a ilha mais complexa e as Flores porque combina o hídrico e eólico”, explica Paulo Ferrão que salvaguarda, no entanto, que em termos de sistema energético teremos de pensar nos Açores como um todo” e, nessa medida, outras ilhas poderão ganhar também auto-suficiência energética. “Estamos a falar de investimentos de dezenas de milhões de euros”, afirma Paulo Ferrão que sustenta, contudo, que as mais-valias do investimento serão recuperadas na poupança resultante da redução do consumo de petróleo e da diminuição das necessidades de transporte de combustível entre ilhas.

Empresas e universidades

O projecto-bandeira do programa MIT Portugal envolve as quatro áreas eleitas do Programa - a bioengenharia, o design/fabrico avançado, sistemas de transporte e sistemas de energia; e conta com a participação de investigadores do próprio MIT e de cinco universidades portuguesas.

Participam no projecto “Green Islands” o Instituto Superior Técnico (IST) e o Instituto Superior de Engenharia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa, o INESC Porto, a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e a Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Lisboa. E há também empresas envolvidas: a Galp, a Martifer, a Efacec, a Agni e a EDP.

E como se faz a ligação entre as universidades e as empresas? “Sempre que desenvolvemos um cenário, juntamos as empresas, averiguamos a sua capacidade de implementação das soluções tecnológicas em estudo”, explica Paulo Ferrão. Os próprios investigadores (a desenvolver trabalho de investigação no âmbito de teses de doutoramento) vão tendo reuniões com as empresas.

Parceiros açorianos

Envolver parceiros açorianos no Programa MIT Portugal, nomeadamente a Universidade dos Açores, a EDA e a empresa terceirense SGC Energia - Centro de Inovação e Desenvolvimento (hidrogénio) , é o objectivo do director nacional do Programa que esteve em Janeiro em Ponta Delgada, para estabelecer contactos directos com o Governo Regional, Universidade dos Açores e EDA, tendo obtido a garantia desejada de apoio.

Como explica Paulo Ferrão, o contributo da Universidade dos Açores para o projecto “Green Islands” pode passar pela recolha de dados de campo, através da monitorização de algumas casas e de entrevistas. “Estes projectos não se fazem no abstracto. Precisamos de dados detalhados sobre como as famílias açorianas usam o frigorífico, a máquina de lavar roupa, a televisão, saber se usam aquecimento a gás ou eléctrico, ou mesmo sobre como é a logística do transporte das bilhas de gás”, exemplifica. Mas o envolvimento da Universidade dos Açores também se pode fazer pela dinamização do curso de Energias Renováveis no pólo da Terceira para incentivar a criação de emprego qualificado, ou seja, para que “os desenvolvimentos tecnológicos que se fazem nos Açores fiquem sob a responsabilidade de pessoas locais”, adianta Paulo Ferrão.

O envolvimento da EDA, por outro lado, é fundamental, pois enquanto gestora da rede eléctrica nas ilhas será a responsável pela criação de uma rede eléctrica inteligente. “Está na mão da EDA investimentos em novas tecnologias de produção de energia renovável”, diz Paulo Ferrão que adianta que a expectativa do MIT é que a EDA invista na aquisição e instalação de equipamentos e que o Governo Regional financie o trabalho de investigação da Universidade dos Açores, no âmbito do projecto.

O trabalho de investigação do MIT para o projecto “Green Islands” está a ser, para já, financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Quatro milhões de euros estão a pagar os recursos humanos, ou seja, os investigadores envolvidos. Mas o objectivo é captar também investimento privado, adianta Paulo Ferrão que revela ainda que a Galp, a EDP, a Martifer, Efacec e a SGC Energia já mostraram interesse em investir, pois reconhecem o seu potencial de negócio, nomeadamente com a venda do equipamento e dos sistemas de gestão inteligente desenvolvidos no âmbito do “Green Islands”.

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