Economia

Açores são a grande síntese da velha vivência europeia

  • 30 de Março de 2011
  • 215 Visualizações, Última Leitura a 22 Junho 2017 às 22:14
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ANTONIETA COSTA: "A atmosfera propícia destas Ilhas será um achado que cativará, de certeza"As ilhas dos Açores são um lugar de tranquilidade, onde está preservada uma cultura popular marcada pelos ciclos agrários e pelos mitos a eles ligados.

É esta visão dos Açores que Antonieta Costa vai transmitir, como conferencista convidada, num cruzeiro marítimo entre o Brasil e Portugal (04 a 18 de abril).


Será conferencista num cruzeiro de barco entre o Brasil e Lisboa (04 a 18 de Abril de 2011), abordando sobretudo temáticas açorianas. Como surgiu essa oportunidade?

Por acaso, em conversa com um colega americano que esteve recentemente cá e mencionou ter viajado como conferencista, num destes cruzeiros.

Foi ele que contactou a Companhia e lhe deu a minha direção, depois de eu ter mostrado curiosidade por esse processo para utilizar na divulgação dos Açores no exterior.

Mas esta oportunidade poderia ter-se perdido quando recebi negativas das entidades que poderiam colaborar, principalmente cobrindo as despesas de deslocação até aos portos de embarque e regresso.

Informei a companhia desse problema com as despesas, mas eles resolveram-no, oferecendo-me essas passagens. Não sei como, nem porquê, mas deveu-se realmente a esse acaso.
 


Em que perspetivas irá abordar os Açores?

Nas que utilizei no trabalho que foi apresentado à companhia e que conduziu ao convite que me dirigiram, ou seja, nas que foram expressas no álbum de DVDs "Ilhas Míticas".

Em termos gerais, foi-me feito um exame oral, por telefone, suponho que apenas para avaliar a minha disponibilidade de, noutras línguas, poder fornecer este serviço.

Penso que as facilidades encontradas se devem principalmente à imagem dos Açores que aí aparece refletida e que tem tido muito boa aceitação no exterior.

Infelizmente o mesmo não acontece cá, onde tem sido subaproveitada nas políticas para o desenvolvimento do turismo cultural da Região.

Vou, portanto, apresentar uma cultura popular marcada pelos ciclos agrários e pelos mitos a eles ligados (embora superficialmente Cristianizados), que é um assunto que, para além de representar corretamente a realidade açoriana, sei que tem despertado interesse no exterior.

Ainda na semana passada recebi um convite para apresentar este trabalho no MAIA: Mostra Audiovisual Internacional de Arqueologia, da Universidade de S. Paulo, o que vou fazer mandando apenas os vídeos (pois nunca há apoios, localmente, para estas deslocações - Quando vou é pelo CITCEM, da Universidade do Porto, a que pertenço como Investigadora).

É realmente estranha esta atitude dos "santos de casa", principalmente porque têm sido muitas as demonstrações de interesse do exterior no papel dos Açores como guardião de um património imaterial que é comum a todo o Ocidente (embora grandemente dissociado das suas vivências rurais, no Continente Europeu).

Assim enquadradas, as festividades tradicionais populares dos Açores podem servir de referência e retoma de conhecimento, não só no plano académico, como também no social e no emocional, que está presente neste contacto com as raízes profundas da cultura, como tenho testemunhado.  
 


Além das conferências, haverá mesas redondas sobre as temáticas que irá abordar. Por que caminhos pretende conduzir essas mesas redondas?

Não estará na minha mão imprimir direções, embora espere que se mantenham ligadas a aspetos específicos das apresentações que levo, para que possam ser de utilidade para a Região.

Mas, por outro lado, é sempre agradável e estimulante abordar novos assuntos.


 
Sabemos que poderá repetir esses cruzeiros culturais. Eles poderão ser considerados boas oportunidades para promover os Açores?

Como disse, penso que sim, dentro desta perspetiva que referi. Embora possa parecer que esta imagem "rural" dos Açores esteja a impedir o reconhecimento do desenvolvimento que aqui se tem registado, tal não acontece, na realidade.

Trata-se, sim, de fazer valer um valor que possuímos mesmo sem (em grande parte) o desejarmos, e que tem a ver com o isolamento, a tranquilidade e a preservação de uma relação íntima e amistosa com a Terra, que faz de nós os herdeiros últimos dessa antiga vivência Europeia.

Outros emigrantes Europeus partiram para outras terras com o objetivo de enriquecer.

Nós não: viemos para cá para criar uma cultura. Talvez por isso preservámos memórias que a outros já não interessavam, mas que agora gostam de rever, ou sentem mesmo grande necessidade de o fazer.

Poderia apresentar exemplos, mas penso que todos sabem a que me refiro.

Quando se fala de "saudade", nela está também incluída essa retoma de contacto com o "clima emocional" que os Açores proporcionam e onde estão subentendidos valores do passado já ausentes das sociedades urbanas.

É nesse papel que, penso, os Açores podem conquistar novos públicos.
 


Há hoje um interesse crescente por questões históricas, etnográficas, religiosas, até místicas. Terão os Açores uma oportunidade nesse mercado?

Há realmente um processo em decurso, em todo o Ocidente, principalmente orientado para uma visão do mundo mais holista, no sentido de abranger de novo o restante cosmos e retirando ao indivíduo a centralidade e o protagonismo que tem tido até aqui.

É um facto que a Psicologia Positiva, como agora é chamada, tem tido um grande sucesso, encaminhando multidões nesse sentido. Isto responde à última parte dos temas que refere. Os outros podem também ser aí englobados, mas de uma forma diferente da tradicional.

Penso que a história e a etnografia dos Açores, por si só, não irão despertar atenção num mercado estrangeiro de turismo, tanto quanto o ambiente que as Ilhas podem proporcionar a quem estiver interessado nesse caminho da descoberta mística do mundo e de si mesmo.

Para esses, a atmosfera propícia destas Ilhas será um achado que os cativará, de certeza. Só necessita ser divulgado corretamente, o que não tem acontecido.

"O turista de massa pode ser educado"

Os Açores têm experimentado problemas ao nível dos fluxos turísticos e do rendimento. A pedra de toque para resolver o nosso problema ainda estará na velha discussão turismo de massas versus turismo cultural? Será que estamos perdidos no labirinto desse dilema?

O turismo de massas poderá ser, em parte, conciliado com o cultural, como fazem outros países, dos quais a Itália é referência. Todo o tipo de gente vai lá e no entanto, consegue manter intocável o seu encanto.

Mas nos Açores, o caso é outro: dada a dimensão das Ilhas, a sua tranquilidade (a meu ver, um dos principais valores a preservar) poderá não resistir. Portanto, neste vaivém de mudanças de políticas, essa contabilidade não pode ser descurada.

E não é tão difícil: pode resumir-se quase só ao preço das passagens... Por outro lado, existe a possibilidade de "educar" o público de massas de modo a impedi-lo de nos degradar. Tudo tem remédio...

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