Economia

Plantadores de tabaco estão a acabar

  • 24 de Agosto de 2010
  • 271 Visualizações, Última Leitura a 21 Novembro 2017 às 15:28
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Quando chega Abril, o das águas mil diz o povo, os últimos plantadores de tabaco da ilha Terceira, deitam à terra as sementes da planta cujas folhas hão-de secar para dar cigarros que dizem puros.

“É preciso capá-lo, limpar as folhas, cortar as pontas e colocá-lo a secar para que a folha engrandeça e possa dar tabaco de jeito”, revelou António Ferreira da Costa, um dos últimos plantadores de tabaco, em declarações à Lusa.

Num terreno junto à residência vê-se a crescer o tabaco plantado em Abril, enquanto outro já está a secar, num processo que se prolonga por 30 dias, e dele vai fazendo cigarros para seu consumo e de dois irmãos.

Depois de colhido e seco, o tabaco é metido em caixas “bem abafado”, um método que vem do tempo do seu pai, com quem se habituou a fumar este tipo de tabaco enrolado à mão.

Também seguindo a tradição do pai, António Costa não fuma cigarros, não só porque não se habituou, mas também porque não gosta, lamentando que os jovens não fumem este tabaco, "mas apenas cigarros e droga”.

“Este tabaco é melhor do que o dos cigarros, é puro e não tem aditivos, mas dentro de poucos anos já não vai haver quem o plante”, lamentou.

António Costa produz cerca de 100 quilos por ano da variedade 'Espada', a mais usada entre os resistentes das plantações de tabaco, mas lembra-se ainda de outras duas variedades, 'Brasileiro' e 'Carrasco'.

“A introdução da cultura do tabaco nas ilhas açorianas é desconhecida”, de acordo com a obra 'Etnografia Açoriana', de Luís da Silva Ribeiro, que garante “ser impossível precisar” uma data.

Segundo o investigador, apesar do monopólio do Estado, introduzido por volta de 1644, e da consequente fiscalização, “fazia-se a cultura clandestina da planta, havendo notícia de diversos contrabandos, até em conventos”.

“Rara é a povoação em que não se encontrem, ao redor das casas, algumas dezenas de pés de tabaco para consumo dos seus próprios donos”, salientou Luís da Silva Ribeiro.

O investigador revelou que o cultivador “cortava as folhas quando começavam a amarelecer, pondo-as a secar nos buracos das paredes de pedra ou abrigada no palheiro ou casa de despejo”.

Mais tarde, as folhas eram colocadas “numa infusão de mel, chá preto, plantas aromáticas e aguardente”, para depois serem “enxugadas, enroladas em torcida e guardadas até estarem secas e prontas a utilizar”.

Segundo o 'Almanaque Açores', existiram sete fábricas de tabaco na Terceira entre 1884 e o princípio da década de 80 do século passado.

A primeira foi a Angrense e a última a Flôr de Angra, que, segundo Manuel Brito, comerciante de tabaco a retalho, foi "comprada por uma de S. Miguel, que apenas quis o alvará para não ter concorrentes".

“Na década de 60 ainda a Flôr d’Angra recrutava jovens estudantes, a 2,50 escudos (cerca de 0,02 euros), eu fui um deles, para trabalhar nos secadores onde se fazia a separação das folhas”, recordou.

 

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