Economia

“O mundo não acaba por se recrutar 50% dos estagiários para voltar aos programas”

  • 7 de Julho de 2010
  • 220 Visualizações, Última Leitura a 19 Setembro 2017 às 15:15
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O director regional do Trabalho, Rui Bettencourt, explica em entrevista as novas regras dos programas Estagiar, cujo objectivo é evitar que as empresas se tornem dependentes deles.

Os programas Estagiar nas suas diversas vertentes vão sofrer ao fim de alguns anos uma grande mudança. O que está na base desta decisão do Governo?

Procurámos com estas mudanças arranjar mecanismos que impedissem as empresas de funcionar na base dos estagiários. Verificámos que as empresas, por exemplo, contratam muito mais no fim do estágio do que as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). Também as empresas que não têm quadro de pessoal raramente contratavam.

O mercado de trabalho está a ficar ‘estagiariodependente’?

Por isso não foi fácil tomarmos as medidas que tomámos. São Miguel e Terceira concentram 90 por cento dos estagiários e definimos que o estágio é de seis meses, podendo ser prolongado até aos 11 meses, sendo que os últimos cinco meses serão já comparticipados em 25 por cento pela empresa que decide ficar mais tempo com o estagiário, havendo aqui algum compromisso.

Nenhuma empresa pode ser obrigada a contratar estagiários, mas a questão daqui para a frente é que as empresas ou entidades que não recrutarem pelo menos 50 por cento dos estagiários, no ano seguinte não podem voltar a recorrer aos programas Estagiar. O mundo não acaba por causa disso! Queremos é que as empresas não funcionem apenas com estagiários.

Quando é que estas regras entram em vigor?

No início de Agosto, abrangendo já o próximo Estagiar. Os prazos de candidatura aos programas, em Agosto e Novembro, mantêm-se os mesmos, havendo agora também uma outra alteração que gostaria de referir e que é a da introdução do subsídio de refeição a assumir pelas entidades, para evitar aquelas situações em que se pedia 10 a 15 estagiários, porque não se gastava absolutamente nada com eles.

Não teme que essas alterações reduzam o número de estagiários na Região?

Isso pode de facto acontecer, mas estava também a haver um sobreaquecimento, com muito mais ofertas de estágio do que estagiários disponíveis. No fundo pretende-se uma ‘moralização’ do Estagiar...
Julgo que os jovens e as empresas e entidades empregadoras nos irão compreender. Iremos, aliás, explicar por escrito às mais de 6 mil empresas açorianas todas as novas regras dos programas Estagiar.

Vamos ter também um site na internet onde as empresas irão colocar as suas ofertas de estágio e onde os jovens poderão mais facilmente escolher onde estagiar, para além da vantagem das inscrições poderem ser feitas online, bem como as folhas de pagamento e de assiduidade, além ainda de um espaço para os jovens deixarem as suas opiniões sobre o programa.

Contudo, gostaria de lembrar que já passaram por este programa mais de seis mil estagiários, com uma taxa média de empregabilidade a rondar os 80%... Que não ficam a trabalhar na sua área de formação... Cerca de metade...

Fizemos uma avaliação ao pormenor e verificámos que no dia seguinte ao fim do estágio, 51 por cento dos estagiários estavam contratados, cerca de metade deles na empresa onde estagiaram e os restantes noutras empresas da mesma área. Quanto aos outros licenciados, procuramos reconvertê-los e temos reparado, por exemplo, que há estagiários licenciados em Línguas que acabam como guias turísticos ou agentes de viagens, ou mesmo licenciados em Filosofia que trabalham no Whale Watching.

Gostaria aqui de dizer que o problema não é do estagiário, mas sim da inadequação das licenciaturas em relação ao mercado de trabalho. Isto apesar da pouca quantidade de licenciados nos activos regionais, pois quando na Europa a média é de 10 a 25 por cento dos activos licenciados, aqui ainda estamos nos 7 a 8 por cento.

Nos próprios programas Estagiar verificamos que a empregabilidade no Estagiar T, virado para o ensino profissional é muito maior do que no Estagiar L, virado para a universidade.

Acha que a Universidade dos Açores não tem estado atenta às necessidades do mercado na Região?

Penso que a universidade está cada vez mais a ter a percepção de que é necessário estar atenta e, dos contactos que tenho tido, quer com a universidade, quer com a sua associação académica, noto a preocupação pela adequação dos cursos ao tecido empresarial.

Falando agora do emprego em geral, para quando prevê que se inverta a actual tendência de subida no desemprego no país e na Região?

O mercado de trabalho não está a funcionar como devia, mas mesmo assim o desemprego nos Açores nunca esteve acima do nacional desde 1998, quando começámos com os planos de emprego e realidade não foi sempre assim nos anos anteriores.

A nossa taxa de desemprego, ou é a menor, ou está entre as menores do país. No actual contexto, é muito difícil prever como a conjuntura externa vai evoluir, mas acredito que precisamos de dois anos até reencontrarmos a estabilidade.


‘Não mete medo vir gente para as ilhas’

Os jovens que estão a fazer o Eurodisseia podem também passar para o Estagiar L. Não haverá aqui um conflito de interesses entre a defesa do emprego na Região e a abertura a jovens do exterior?

Para Rui Bettencourt, essa é uma das leituras que se podem fazer, mas há também a leitura dos Açores terem somente cerca de 250 mil habitantes, quando teriam outra dimensão se tivessem, por exemplo, 400 mil .

“Não me mete medo vir gente para os Açores, que vai depois gerar mais actividade e, consequentemente, mais emprego. Além disso, cada região que envia estagiários também os recebe e temos tido açorianos que ficam no estrangeiro”, concluiu.

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