Economia

Peças tradicionais ultrapassadas pelo "ready-made"

  • 22 de Março de 2010
  • 239 Visualizações, Última Leitura a 22 Novembro 2017 às 16:38
    • *
    • *
    • *
    • *
    • *

Actualmente, a criação e venda de peças artesanais de cunho tradicional parecem ultrapassadas pela produção de “souvenirs” sem identidade cultural.

Com excepção dos bordados, as cestas de vime e as miniaturas em madeira, por exemplo, dão lugar a camisas, bijutaria e louças industrializadas com a marca “Açores”. 

Os clientes são cada vez menos criteriosos. A afirmação é de Narciso Lopes, artesão de miniaturas em madeira alusivas à agricultura e cozinha típicas da ilha Terceira, à conversa com “a União” sobre o artesanato regional.   

Apesar de ligado à actividade desde 2005, só há dois anos é que assumiu esse ofício dedicando-se quase a tempo inteiro ao fabrico de réplicas de peças antigas – miniaturas e tamanho real – e modernas de selo genuíno. Neste caso, revela, as pulseiras e os anéis atingem o topo de vendas, adquiridas sobretudo pelas camadas mais jovens da população.

O negócio ou a falta de na produção artesanal, contudo, está aparentemente a contrariar o espírito empreendedor do artesão e carpinteiro da freguesia das Quatro Ribeiras, estando em causa a oferta de peças industrializadas com a marca “Açores”.

“A oferta é muita e de má qualidade. O cliente está a preferir comprar uma lembrança da terra de imitação por custar muito menos dinheiro”, revela Narciso Lopes, proprietário de uma loja de artesanato regional na cidade da Praia da Vitória. “Há também muita gente que aparece com produtos julgando tratar-se dos genuínos. Na minha loja não há artigos de imitação”, acrescenta.

No entender do artesão deviam ser criados requisitos legais de modo assegurar a produção artesanal de origem e respectivos pontos de venda, e, por isso, deixa o apelo às entidades competentes.

“É preciso meter um travão no que é de fora e com o nosso nome. O Governo devia promover mais as nossas produções”, sublinha.

Questionado sobre o retorno e a compensação do investimento na abertura de um estabelecimento comercial dedicado apenas à venda de artigos de fabrico manual “100 por cento Açores”, Narciso Lopes prontifica: “Viver só do artesanato não compensa”. 

Neste sentido, destaca os incentivos governamentais ao desenvolvimento do artesanato considerando um apoio “fundamental”, sendo a participação em feiras específicas, a nível regional e nacional, também abrangidas pelo sistema de incentivos, “um contributo significativo para a divulgação do nome”.  

Pontos de venda próprios

Pires Borges, guia intérprete, defende a criação de um espaço para a venda concentrada de peças de artesanato regional, isto é, confeccionados com material de origem e à mão, em cada uma das cidades principais dos Açores, por conta das autarquias ou governo, uma medida que poderia assegurar a qualidade das vendas.  

“As pessoas vão muito atrás do bibelô com figuras representativas dos Açores mas fabricado na China, por exemplo. A existência de um espaço próprio permitiria a exposição dos produtos e as pessoas poderiam ver o que realmente se faz de genuíno na ilha, em vez de estarmos a vender em grande percentagem”, considera ao sublinhar que “não é sua intenção prejudicar os comerciantes locais”, porém, “é preciso defender o que é nosso e genuíno”.   

Outra questão que devia ser repensada por parte das entidades competentes, segundo o guia intérprete, é a falta de divulgação e promoção permanente do artesanato, sendo “insuficientes” as feiras realizadas por altura das festas Sanjoaninas e Praia da Vitória.

“A Terceira é um ponto de passagem para o turista, as pessoas permanecem pouco tempo cá. O artesanato não pode estar exposto apenas nas feiras”, declara.        

“Podia ser uma economia. Por isso uma loja própria com oferta diversificada de artigos de artesanato seria uma maneira de ajudar os pequenos empresários e faria com que o turismo pudesse desenvolver essa indústria, pelo menos a não perdê-la”, sustenta.

Por outro lado, além das galochas, o cesto de vime e o bordado a branco, por exemplo, Pires Borges realça um tipo de artesanato feito com produtos naturais da região, nomeadamente as pedras vulcânicas, na área da ourivesaria. Um trabalho feito à mão que pode ser considerado “artesanato moderno”. 

“São peças mais criativas, colares e anéis, que exploram algumas das nossas matérias-primas. Há espaço para tudo e deve-se continuar a fazer. É importante essa expressão e tem valor”, conclui.

Viver da cerâmica

Já a produção de louça regional da ilha Terceira e a pintura em azulejos permite o sustento de vida a Aurélia Rocha. A artesã de tempo inteiro, com atelier próprio nas Cinco Ribeiras, em actividade há uma década, salienta a ajuda dos apoios disponíveis pelo Governo, no seu caso destinados à compra de materiais e equipamentos específicos para a produção cerâmica regional – pratos, taças e jarros são alguns dos utensílios domésticos, de utilidade e decoração, confeccionados e pintados à mão. 

“Dá para viver”, resume a artesã, indicando turistas – portugueses e estrangeiros –, população local e entidades oficiais como os seus principais clientes. “Geralmente para ofertas”, refere.

Essa reintrodução da indústria de cerâmica original, desenvolvida a princípio pela abundância de barro na Terceira, nos séculos anteriores, surgiu por “gosto, jeito e prática”, conforme diz Aurélia Rocha.

“Investi a nível de formação, inovação e promoção”, remata.

Bordadeiras em falta

A área dos bordados revela-se mais complexa. De acordo com Luís Costa, responsável por uma das fábricas mais antigas dos Açores, fundada em 1945, a situação actual apresenta dificuldades não só a nível financeiro mas também a nível de recursos humanos. Se antigamente existiam 4 mil bordadeiras na ilha Terceira, hoje o número andará pelos 500. 

“Verifica-se um decréscimo enorme. Daqui a 30 anos esta produção ter desaparecido”, diz o fabricante, exportador e retalhista de bordados feitos à mão e em linho puro, manifestando a sua preocupação face ao futuro do bordado terceirense no mercado desde os meados do século XIX.

Em causa poderá estar a instabilidade económica da actividade e a falta de interesse das novas gerações na aprendizagem desse género de arte.

“ O problema é o tempo necessário para fazer uma peça. A peça mais simples pode levar 15 dias e a mais complexa um ano. Assim a bordadeira não consegue ser remunerada mensalmente”, explica.

São artigos de marca própria, artigos de cama e mesa em pontos ilhós e cheio, um tanto ou quanto dispendiosos, que foram reconhecidos há 12 anos com certificado de qualidade pelas entidades governamentais.

“Os residentes e o turista europeu são grandes apreciadores”, revela Luís Costa, que desvaloriza a presença dos bordados nas feiras locais.

“É importante marcar presença nos eventos nacionais. Aqui o nosso produto é bastante conhecido. Ainda assim acaba por não compensar uma ida ao continente com esse propósito. A última vez que fomos foi há dois anos”, considera ao valorizar o montante atribuído pelo sistema de incentivos do governo regional.
 
350 unidades nos Açores

Segundo dados oficiais avançados pelo Centro Regional de Apoio ao Artesanato (CRAA), actualmente existem nos Açores 350 unidades produtivas artesanais na totalidade, sendo 54 na ilha Terceira, nas áreas de Artes e Ofícios Têxteis, Cerâmica, Elementos Vegetais, Madeira, Metal, Pedra, Papel, Restauro de Bens Comuns, Produção e Confecção Artesanal de Bens Alimentares.

“É um bom número se tivermos em conta dois factores: representa cerca de metade do nº de unidades produtivas artesanais registadas no continente; e o artesanato é uma actividade económica com um mercado de consumo restrito que na maior parte das vezes constitui uma fonte de rendimento complementar”, considera a directora do CRAA, Alexandra Andrade.

Questionada sobre a comparação dos actuais valores com os números dos últimos três anos, a responsável diz “não ter dados estatísticos que me permitam facilmente aferir o nº de artesãos nos anos anteriores”, mas, apesar disso, sublinha que este sector profissional tem vindo a aumentar desde a entrada em vigor da nova regulamentação, em 2004.

“Este número (350) tem variações muito ténues, uma vez que estão sempre a inscrever-se novos artesãos, por outro lado existem outros que cessam a sua actividade”, conclui.

O ano passado candidataram-se ao programa de apoios ao desenvolvimento do artesanato 178 das 380 unidades produtivas artesanais.
 
Prazo para candidaturas termina hoje

Termina hoje o prazo de entrega de candidaturas para incentivos ao desenvolvimento do artesanato, promovidos pela Secretaria Regional da Economia, referentes a projectos que visem a formação e inovação do artesão, a participação em feiras ou promoção.

Entretanto, está a decorrer até 22 de Abril a apresentação das candidaturas referentes aos projectos de investimento em unidades produtivas artesanais.

A entrega de ambas as candidaturas arrancou no passado dia 22 de Fevereiro para este programa de apoios financeiros que tem uma dotação global de 200 mil euros.

Comentários

Deixar Comentário

Quantos são Cinco mais Oito? O que é isto?

Pesquisar

Conhecer Todos
Conhecer Todos