Economia

Novo modelo para transporte marítimo é necessário

  • 30 de Janeiro de 2017
  • 405 Visualizações, Última Leitura a 18 Junho 2019 às 23:47
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Câmara do Comércio e Indústria dos Açores reclama mais ligações e menores custos no transporte de carga. Críticas ao atual sistema e às condições dos portos são várias.

Portos mal equipados face às necessidades atuais do transporte marítimo; custos muito elevados do transporte; poucas frequência e às vezes irregulares, sobretudo nas ilhas mais pequenas e dificuldades de exportação em tempo útil para a entrada no circuito logístico nacional.

Estes são, em linhas gerais, os maiores problemas que os empresários detetam no transporte marítimo açoriano e que, no seu entender, justificam que se avance para um novo modelo que não só reforce as ligações ao continente como melhore o circuito das mercadorias interilhas.

Isto apesar do modelo de transporte marítimo atual ter a virtude de não implicar indemnizações compensatórias pagas pelo orçamento da Região.  “De uma forma sucinta, podemos caracterizar este sistema como ineficiente, porque o que os empresários sentem neste momento é que temos um sistema logístico com graves problemas nas infraestruturas e equipamentos, com portos a necessitar de profundas remodelações para serem competitivos, mas também taxas que oneram muito a competitividade da nossa economia, além de uma estiva que teria de ser melhorada e mais produtiva”, afirma em declarações ao Açoriano Oriental o presidente em exercício da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores.

Para Sandro Paim, esses constrangimentos refletem-se ainda na “frequência e na regularidade, com falta de previsibilidade” do transporte marítimo interilhas, gerando situações em que “os empresários esperam pela mercadoria à segunda e só a recebem à quarta, ou esperam na terça e só recebem na sexta ou mesmo não chegam sequer a receber naquela semana, o que pode gerar quebras de ‘stock’”, alerta.

Sandro Paim reconhece que nos Açores as condições climatéricas afetam muito a operação nos portos, mas garante que há também muitos atrasos que resultam de alterações de horários e de percurso dos navios no seu circuito pelos Açores. As exportações açorianas ficam, por isso, prejudicadas porque as mercadorias passam muito tempo em trânsito de um ponto ao outro - o que torna a exportação de produtos perecíveis mais complicada - e o custo do transporte marítimo é elevado.

“É essencial que tenhamos um sistema no qual os barcos saiam daqui à sexta-feira e à segunda-feira já tenham descarregado tudo em Lisboa para entrar no sistema nacional de logística, por transporte terrestre, por via férrea ou por via aérea, porque se não entrar na segunda-feira, tem de se esperar uma semana para entrar de novo no sistema logístico, que funciona em cadeia”, alerta Sandro Paim.

Atualmente, os três armadores a operar nos Açores - Mutualista, Transinsular e Box Lines - têm a obrigação de tocar todas as ilhas pelo menos uma vez por semana, sendo que as Flores e, consequentemente o Corvo, só têm barco uma vez em cada quinze dias.  São Miguel e Terceira têm três navios por semana mas que, por questões de gestão da carga que vai para as ilhas mais pequenas, muitas vezes estão os três no mesmo dia nos portos de Ponta Delgada e Praia da Vitória, o que na prática não se traduz numa maior regularidade semanal do transporte marítimo.

O modelo que os empresários defendem é, por isso, um modelo em que “devia ser claramente separado o sistema interno de distribuição de mercadorias das ligações com o continente, para que tivéssemos um sistema interno a funcionar com obrigações de serviço público que garantissem o aumento da frequência nas ilhas, em dias separados e com custos iguais para todas as ilhas, num abaixamento que nós acreditamos ser possível na ordem dos 20 por cento”, explica Sandro Paim.

Dessa forma, seria dinamizado o mercado interno, com a colocação de mercadorias de uma ilha para outra em dois, três dias, ao mesmo tempo que haveria a ligação, através da Terceira e de São Miguel, ao continente, feita com navios maiores. Sandro Paim admite, contudo, que “olhando para estes dois sistemas, sabemos que a ligação ao continente iria ter custos bastante mais reduzidos, mas sabemos também que o sistema interno, que hoje não existe, iria ter custos, obrigando a um contrato de concessão de serviço público em que deveriam ser tidos em atenção aqueles que já operam na Região, envolvendo-os nesse novo sistema”, conclui.


Açores com excesso de navios

Demecília Freire, especialista e consultora em transporte marítimo, esteve entre os fundadores da Transinsular e integrou a AçorLine, a antecessora da Atlânticoline. Conhece, por isso, bem os Açores e a realidade dos seus transportes marítimos.

Em declarações ao Açoriano Oriental não tem dúvidas em afirmar que o modelo de transporte marítimo de carga atual “não é o mais adequado, não torna os fatores de produção mais baratos e poderia ser bastante melhorado”.

E desde logo, um dos problemas do atual modelo que Demecília Freire aponta é o dos seis navios no conjunto dos três operadores a fazer as ligações, um número que esta especialista em transporte marítimo considera inadequado face às reais necessidades dos Açores.

Por isso, defende um modelo baseado em apenas quatro navios: dois para fazer as ligações entre os Açores e o continente e dois para o transporte da carga interilhas.

Esses quatro navios seriam operados por uma empresa que resultasse de um consórcio entre os atuais três operadores, que acordariam entre si o peso relativo de cada um nessa empresa, que teria, contudo, uma gestão profissional e autónoma.

Demecília Freire considera importante haver um circuito interilhas  de transporte marítimo de carga, porque mesmo historicamente já se comprovou ser um sistema mais rápido “e com menos custos associados” , afirma.

Um sistema que tenha em conta que “ São Miguel e Santa Maria representam cerca de 51% no total da carga movimentada, 22 a 26% na ilha Terceira, sendo o restante para as ilhas do Grupo Ocidental”.

Considera ainda que, mediante reuniões, esta ideia básica pode “ser naturalmente melhorada”.

Um dos aspetos que esta especialista em transporte marítimo aponta como geradores de maiores custos neste momento é o dos navios que escalam os Açores terem necessariamente gruas próprias para a movimentação das mercadorias.

Isto porque, “o  custo das gruas no total de um navio é de cerca de 35 a 40 por cento do custo o que altera o custo dos fretes”, alerta.

Mas para que deixassem de existir gruas nos navios de longo curso a operar nos Açores, Demecília Freire considera que a empresa Portos dos Açores “já deveria ter investido seriamente nas gruas que tem nos portos de Ponta Delgada e Praia da Vitória, para além da substituição dos reach-steakers de movimentação horizontal, muitos deles obsoletos .

Evidente se torna que os navios interilhas teriam gruas próprias para operarem nas restantes Ilhas”, conclui.


Fonte: Açoriano Oriental

 

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