Economia

"Não podemos repetir o erro de ter 30% do PIB dependente da Base das Lajes"

  • 26 de Setembro de 2016
  • 399 Visualizações, Última Leitura a 24 Maio 2019 às 18:05
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Roberto Monteiro Autarca da Praia da Vitória elogia postura dos americanos em relação aos trabalhadores portugueses, mas admite que a crise económica causada pela redução da presença militar só poderá ser colmatada com o turismo e com o aproveitamento do porto comercial.


Roberto Monteiro, gestor de 48 anos, está a terminar o seu terceiro mandato como presidente da Câmara da Praia da Vitória, não podendo, por lei, recandidatar-se. Eleito pelo PS, está à frente dos destinos da Praia da Vitória desde 2005.

Entrevista de Rui Jorge Cabral, pelo Açoriano Oriental, a Roberto Monteiro:

Agora que está prestes a fechar um ciclo de 12 anos como presidente da Câmara da Praia da Vitória, que balanço faz dos seus mandatos ?

Tive 12 anos atípicos. Entrei na Câmara em 2005, num período de transição de Quadros Comunitários de Apoio e, praticamente durante os primeiros dois anos, não tive a mínima possibilidade de fazer obra e implementar o meu projeto para o Concelho, porque não tinha acesso aos fundos.

A meio do primeiro mandato, cheguei mesmo a sentir alguma desilusão.

Contudo, durante estes primeiros dois anos aproveitei para desenvolver os projetos das intervenções que achava estruturantes para o futuro do Concelho e quando, no início do meu terceiro ano do primeiro mandato, abriu finalmente o Quadro Comunitário de Apoio, aconteceu o maior ‘boom’ de investimento autárquico da história do Concelho, no qual investimentos quase 150 milhões de euros com o recurso a fundos comunitários.

O segundo mandato fica muito marcado pelas consequências da catástrofe natural da Agualva, em dezembro de 2009, na perspetiva de que quase tudo o que eu tinha pensado fazer em continuidade com o primeiro mandato teve de ser interrompido para desviar os recursos financeiros para a reabilitação dos danos da catástrofe.

Como o Governo da República não nos ajudou, tivemos de arcar com mais de cinco milhões de euros de despesa para reabilitar a Agualva e todas as restantes zonas danificadas pelas enxurradas.

Finalmente, o terceiro mandato fica indiscutivelmente marcado pelo problema da Base das Lajes. Em dois, três anos, o Concelho da Praia da Vitória perdeu 30 por cento do seu PIB; o número de desempregados passou de 400 para dois mil e uma em cada três empresas fechou. Tudo isto marcou muito o meu percurso nestes últimos três anos.


Como conseguiu a Praia da Vitória, perante estes números, reagir à crise?

Mais uma vez tivemos que esquecer sonhos e projetos autárquicos e a reajustar a nossa estratégia e recursos financeiros, virando todos os meios e todos os recursos para o apoio às famílias, sobretudo a que estavam em situação de desemprego.

Passámos a afetar mais de dois milhões de euros por ano a programas de apoio às empresas e às famílias; criámos uma rede operacional de intervenção e contacto direto com todas as empresas do Concelho e fomos também elos de ligação ao Governo Regional, no sentido de apoiarmos de forma especial as situações mais graves, nomeadamente através dos problemas de emprego, que devolveram a muitas pessoas um rendimento mínimo para as suas famílias.

De resto, praticamente tudo teve de parar e aproveitámos mais uma vez para trabalhar nos projetos que irão ser agora candidatos ao novo Quadro Comunitário de Apoio.


Como é que ficou a relação com os americanos depois desta crise?

A relação com os americanos nunca mais será o que foi, mas penso que acabou melhor do que poderia ter acabado, pelo menos até agora.

Numa primeira fase, houve um sentimento de revolta e quase de rancor para com a falta de consideração e respeito que os americanos estava a ter com esta comunidade que, ao longo de 70 anos, praticamente os acolheu como família.

Contudo, a meio do processo, começou a perceber-se, da parte dos americanos, uma alteração na estratégia, nomeadamente ao nível dos trabalhadores portugueses que trabalhavam diretamente para a Base, dando-lhes a possibilidade de sair de forma digna, independentemente das funções que desempenhassem, com a reforma antecipada e com indemnizações médias entre os 50 e os 80 mil euros.

De alguma forma, este assunto foi bem gerido da parte dos americanos.

Também com o desenrolar das reuniões bilaterais e com a pressão exercida, ficou acertado que se faria este processo sem despedir ninguém, porque numa fase inicial e mesmo com as rescisões por mútuo acordo, estavam previstos mais de 100 despedimentos.

Fomos, por isso, conseguindo trabalhar e inverter esse processo que teve um final feliz. Acabaram por sair da Base entre 360 a 380 trabalhadores, mas todos saíram de uma forma que até perante o resto da sociedade foi considerada como uma oportunidade única.

No fundo, o efeito maior da redução norte-americana foi na economia…

Sim, porque os americanos passaram de quase duas mil pessoas para 200, com impactos no mercado de arrendamento, nos estabelecimentos de restauração e bebidas, no comércio tradicional e na aquisição de bens e serviços.

Além disso, o investimento dentro da Base, durante este processo de redução, praticamente estagnou, o que afetou bastante as empresas de construção civil que só agora começam a retomar a atividade.

 

Acredita que a vinda de uma companhia ‘low-cost’ para a Terceira possa ser o ponto de viragem para o renascimento da economia da Praia da Vitória e da Terceira, em geral?

É indiscutível que será uma das medidas estruturantes para o inverter deste processo.

Em primeiro lugar, porque ela direciona-se muito para os setores que foram mais afetados com a redução da presença dos americanos nas Lajes.

Dou-lhe um exemplo: só no Concelho da Praia da Vitória ficaram 400 casas vazias no intervalo de um ano e meio, casas essas que antes eram arrendadas a americanos. E posso hoje dizer que, dessas 400 casas, duzentas já estão neste momento certificadas para Alojamento Local.

Outro exemplo é da restauração, comércio e serviços, que foram áreas completamente devastadas com o processo de redução da Base e que são agora áreas onde o turismo poderá deixar os rendimentos que lhes foram retirados.

Por outro lado, com o sucesso desta medida, tenderá a haver mais investimentos e esses novos investimentos poderão ser também um motor de arranque para o setor da construção civil.

Há, contudo, uma componente que o turismo não resolverá: é que mesmo deixando mais rendimentos no Concelho, não permite criar dois mil empregos, ou seja, os empregos que se perderam só poderão ser de alguma forma substituídos por investimentos na área da indústria e de novos serviços, uma ‘nova economia’ que, no meu entender, passa em grande pela vertente logística.


O Porto da Praia da Vitória encaixa nessa ‘nova economia’ de que fala?

É estratégico e estruturante que o Porto da Praia da Vitória passe a funcionar como um agente atrativo de novos investimentos potenciadores de uma nova componente logística, geradora de emprego e de riqueza.

Tem havido muita discussão na Região sobre isso, como se sabe, mas o Porto da Praia da Vitória tem uma vocação de Plataforma Logística.

Já estive presente em reuniões com operadores do mercado brasileiro que me falaram numa estratégia de colocação de determinados produtos em fase final de fabrico na Praia da Vitória para - e tendo em conta a equidistância e os baixos custos da operação - fazerem a partir da Praia da Vitória uma plataforma de distribuição para os Estados Unidos, para a Europa e para África.

Poderíamos ganhar com essa perspetiva investimentos na área industrial, que poderiam empregar, em grande parte, a mão-de-obra com qualificação técnico-profissional, ao mesmo tempo que envolveria uma operação portuária que iria acrescentar mais emprego e tecnologia, potenciando ainda as exportações, tendo em conta que a última etapa da transformação seria na Praia da Vitória.

É que nunca mais podemos repetir o erro de ter 30 por cento do PIB dependente da Base das Lajes, porque já percebemos quais são as consequências que daí podem advir.


Fonte: Açoriano Oriental

 

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