Economia

Pesca será o "setor mais prejudicado" com a TTIP

  • 7 de Setembro de 2016
  • 331 Visualizações, Última Leitura a 23 Setembro 2018 às 18:37
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A assinatura da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA) “não trará mais-valias para o setor das pescas dos Açores”, que será “o setor mais prejudicado com este acordo”, avançou ontem Gualberto Rita, presidente da Federação de Pescas dos Açores, na apresentação do estudo  “Impacto da TTIP na Economia dos Açores”.

O setor das pescas açoriano, “já em si frágil e que vive uma profunda crise”, num cenário de liberalização do comércio, “pode ver os  produtos açorianos substituídos por outros, que já nos estão a prejudicar, oriundos de países terceiros, com alguma mão-de-obra duvidosa e de origem duvidosa, que competem de forma desleal com os nossos produtos”, afirmou também Gualberto Rita, durante o debate que reuniu, para além da Federação das Pescas, os representantes da Federação Agrícola dos Açores (FAA), da UGT-Açores e da Câmara de Comércio dos Açores (CCIA), para uma primeira reação aos efeitos da TTIP na economia regional.

Quanto aos 20% do pescado açoriano exportado “apenas uma margem muito mínima é exportado para o EUA”, muito por culpa da “barreira dos transportes” que impossibilita os armadores da Região de “exportar mais do que exportamos, principalmente na pesca do atum”.

Porém o presidente da Federação de Pescas dos Açores assumiu que “não pomos de parte que venha a ser um bom acordo desde que se possam mitigar alguns impactos que a TTIP possa vir a trazer, nomeadamente na questão dos transportes”.

Fora o setor das pescas, este acordo transtlântico representa, segundo Rodrigo Oliveira, subsecretário regional para as Relações Externas, “um potencial positivo” para a Região, acrescentando que “o Governo dos Açores encara a Parceria Transatlântica como uma real oportunidade para os empresários e para a Região, que poderão encontrar, a médio prazo, uma conjuntura favorável para aliar às relações históricas, culturais e institucionais com os EUA e à posição geoestratégica da Região, o reforço, efetivo e crescente, da componente comercial e de serviços da Região”.

De facto, no estudo apresentado ontem em Ponta Delgada, elaborado especificamente para a Região pelo Centro de Estudos de Economia Aplicada do Atlântico da Universidade dos Açores, a pedido do governo regional e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD),  conclui-se que o crescimento do PIB da Região, em 2030, será superior em 0,4%, num cenário modesto (eliminação total tarifária e 20% de eliminação de barreiras não-tarifárias) e de 0,77% num cenário ambicioso (barreiras não-tarifárias reduzidas em 50%).

Estes números vêm assim contrariar as percentagens avançadas pelo estudo feito por Joseph François e Miriam Manchin em 2014 para o impacto da TTIP em Portugal, que, “por limitação na disponibilidade de dados detalhados dos Açores”, dava conta de um crescimento do PIB regional na ordem dos 0,19% num cenário moderado  e 0,35% num cenário ambicioso.

O estudo realizado agora concluiu também que, em 2030, o consumo privado nos Açores será mais elevado entre cerca de 3,70% e 5,92% e o emprego aumentará entre 1,05% e 1,67%, contrariando outra vez o estudo de 2014 que apontava uma descida do emprego em cerca de 0,19% no cenário moderado e 0,08% no cenário ambicioso.

Mário Fortuna, um dos autores do estudo, afirmou durante a apresentação, que “sendo um impacto globalmente positivo, há setores que têm um impacto positivo e outros um impacto negativo.

Os “setores que evidenciam maior dinamismo e capacidade de beneficiar deste acordo acabam por ser a indústria transformadora dos laticínios, a área da hotelaria e restauração, a área dos transportes e comércio a retalho e a grosso e a área dos correios e serviços”.

Já as áreas negativas são “o setor da transformação do pescado e da carne e a pesca”, enquanto  a agricultura é “ambígua”. Mas “não estamos a falar de negativos desastrosos, será um ambiente mais competitivo, mas que suscita preocupações por esta razão”.

Para Jorge Rita, presidente da FAA, “na questão da liberalização há sempre quem ganhe”. Nos Açores, “não será por via da dimensão que chegaremos lá, mas de qualquer forma temos consciência que temos aqui uma oportunidade de afirmação daquilo que são as nossa produções tradicionais de excelente qualidade associadas à Marca Açores”.

Porém na “agricultura, a montante, percebe-se claramente que [a TTIP] pode não ser benéfica, embora na agroindústria esta matéria pode ser bastante positiva”, continuou o presidente da FAA.

“É previsível que no setor leiteiro e na produção de queijos, esta situação possa ser favorável, se ficarem salvaguardadas muitas situações, quer a nível dos transportes e da própria indústria, que tem de pensar que não pode continuar a produzir produtos de gama baixa”, disse ainda Jorge Rita, acrescentando que “estamos a  nivelar os preços por baixo, um produto dos Açores tem que ser mais caro do que todos os produtos existentes no mercado”.

Para Francisco Pimentel, presidente da UGT-Açores, a TTIP é “positiva”, mas “temos que ver a nossa dimensão, os efeitos [do acordo] serão  muito marginais em relação aos Açores”. Os impactos económicos também “serão muito mais positivos para os setores não transacionáveis do que nos setores transacionáveis”.

Já na perspetiva da CCIA, na voz de Sandro Paim, “concordamos com o impacto desta Parceria Transatlântica”.

“Acreditamos numa economia aberta, a economia aberta é essencial para o crescimento da economia, mas quer nestes cenários estudados, quer no que está a ser trabalhado agora a nível da União Europeia, acho que era importante salvaguardar as Regiões Ultraperiféricas nestes acordos”, terminou o presidente da CCIA .


Fonte: Açoriano Oriental

 

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