Economia

Sandro Paim traça retrato da ilha que “não vai lá…”

  • 15 de Junho de 2015
  • 719 Visualizações, Última Leitura a 20 Junho 2019 às 23:21
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"A gente assim não vai lá!", desabafou Sandro Paim na inauguração da Feira Agrícola Açores 2015, ontem, na Praia da Vitória.

O líder da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo (CCAH), que discursou dirigindo-se ao secretário regional da Agricultura e Ambiente, Luís Viveiros, que presidia à cerimónia de inauguração do certame, disse que só por estar num momento "de transmitir esperança" é que seria parco nos exemplos.

Segundo Paim, as escalas técnicas nas Lajes chegam a custar mais cerca de 120 por cento face aos custos nos aeroportos açorianos concorrentes. Disse ainda que, mesmo com o PREIT - Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira a funcionar, os contentores custam no Porto da Praia da Vitória mais 30 a 40 por cento face aos custos nos portos açorianos concorrentes.

Acresce o facto, adiantou, de a Terceira estar desfavorecida em relação aos portos concorrentes na colocação de produtos frescos por via marítima, por escassez na frequência das ligações. "Apesar de o PREIT prever duas ligações por semana...", anotou.

Sobre a lavoura, o líder da CCAH revelou que, face aos dados das associações do setor, os terceirenses perdem cerca de dez milhões de euros por ano quando os preços do leite à produção são comparados com os preços de São Miguel. "São menos dez milhões que entram na economia da Terceira", observou. E acrescentou que a lavoura da Graciosa vive a circunstância, que considerou inadmissível, de não poder abater gado na sua ilha, tendo que o enviar para a Terceira, por falta de matadouro certificado.

Segundo Sandro Paim, é também grave o facto de uma empresa de abate de aves na Terceira, a única privada a fazer esse serviço, estar em vias de fechar as portas devido a "concorrência dos matadouros públicos", que fazem o mesmo serviço por um terço do preço. "Trata-se de concorrência que consideramos desleal", disse.

Sobre o turismo, Paim anotou que os dados são positivos em quase todas as ilhas, menos na Terceira, onde as receitas estão a decrescer. Lembrou que quando o Governo Regional entendeu utilizar "dinheiros públicos" para colocar voos charter em São Miguel com turistas, a Terceira não protestou. "Esse esforço teve resultados, mas agora chegou a vez de o Governo fazer o mesmo pela ilha Terceira", referiu o líder dos empresários.

Finalmente, Sandro Paim, que falava numa feira construída em plástico, lembrou que o Governo Regional prometeu, em 2004, que o Parque de Exposições da Terceira ficaria construído em 2008; em 2010, prometeu que seria em 2012 "e ainda não há parque". Referiu que só muito mais tarde é que começou a ser projetado um parque de exposições para São Miguel, que "já está construído".

O TEMA DO LEITE

"Os agricultores açorianos fizeram a sua parte" no âmbito da liberalização do setor leiteiro que levou a uma descida acentuada do preço do leite pago ao produtor e "a Comissão Europeia não pode, por isso, continuar a ignorar que o mercado está inundado de leite e de produtos láteos, sem agir".

A opinião é do secretário regional da Agricultura e Ambiente, proferida também no âmbito da Feira Agrícola Açores 2015 que foi inaugurada ontem, na Praia da Vitória, e que decorre até ao dia de amanhã, 14 de junho.

Para Luís Viveiros, a Região, "apesar de discordar, preparou-se para um cenário de liberalização, através da implementação de medidas para tornar o setor da produção de leite nos Açores mais forte e mais competitivo" e não merece, por exemplo, "que no Conselho Europeu de Ministros da Agricultura, agendado para a próxima semana, a questão do leite - da maior emergência - não faça parte da ordem de trabalhos".

Já o presidente da Associação Agrícola da Ilha Terceira (AAIT), José Azevedo, diz que "a indústria na ilha Terceira estagnou no tempo, já que há 25 anos que não lança um produto no mercado e tem até perdido vários ao longo dos anos", o que considera ser mais uma "pedra no sapato" aliada aos panoramas europeu e mundial.

Ainda assim, concorda que "nós os produtores já demos, ao longo do tempo, provas mais que suficientes que temos grande capacidade para nos adaptar a todas as normas, imposições e evolução nos modos de produção", acrescentando que apesar de "termos na Região produtores e explorações em pé de igualdade com a realidade europeia", continuamos a sofrer da "limitação de ser uma região ultraperiférica".

Relativamente a esta questão, diz o secretário regional da Agricultura e Ambiente que "os mecanismos despoletados pela Comissão Europeia face ao embargo russo - nomeadamente o apoio ao armazenamento - já não são suficientes", sendo que "para regiões ultraperiféricas e de montanha, têm que ser criados mecanismos adicionais neste período de transição".

Além do "boicote da Federação Russa", o secretário regional identifica também "a retração de importações por parte da China e de Angola - destino de 80% das exportações de produtos lácteos portugueses fora da Europa" como os principais problemas que afetam o setor leiteiro a nível europeu, "num ano de extraordinárias condições climatéricas para o aumento da produção de leite".

RUMO A SEGUIR

Apesar das principais dificuldades do setor agropecuário na Região, o setor não pode "descurar o trabalho que temos feito ao longo dos anos e deve manter-se ativo para quando os mercados começarem a dar sinais positivos estarmos aptos a dar o nosso contributo", com um setor primário "forte e pujante", diz José Azevedo.

O dirigente associativo lança então o apelo para "que se criem medidas e mecanismos que sirvam para minimizar os impactos negativos que se fazem sentir" e que "sirvam de suporte para não destruirmos um setor fundamental para a fixação da população em todas as ilhas", equilibrando a balança comercial.

Além disso, diz José Azevedo que "o setor agropecuário é primordial para alimentação da população humana que vai aumentar significativamente nos próximos anos", sendo essa "mais uma razão para preservarmos o nosso sector" com base numa união de "produtores, industriais e Governo Regional".

Já da parte do próprio executivo, Luís Viveiros diz não haver dúvidas de que"apoiar a Agricultura é apoiar todo o desenvolvimento económico e social da Região, na medida em que contribui, significativamente, para o crescimento de muitos outros setores de atividade", acrescentando que o potencial de crescimento da agricultura e da pecuária "ainda não está esgotado", principalmente "nas áreas da diversificação e da carne".

O desafio necessário é, portanto, segundo o secretário, "substituir a expedição de animais vivos pela exportação de carcaças e de carne em formatos de consumo", reforçar a inovação e valorização dos produtos láteos e "prosseguir num modelo de desenvolvimento que assente no incremento das exportações, na redução das importações e no reforço do autoconsumo".

Fonte: Diário Insular

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